O que a astrologia, a homeopatia, os chacras, as terapias alternativas, a cartomancia, os mantras, o tarô cigano e os florais de bach têm em comum?
Todos são pseudociências, superstições sem sentido. Iludem, enganam e exploram a boa-fé de milhões de pessoas no mundo. Assim como as religiões, cada uma dessas pseudociências possui seu próprio sistema de crenças irracionais, que prospera e conquista ‘devotos’ graças…
Estatisticamente não há discussão. A Operação Lei Seca da cidade do Rio de Janeiro é um sucesso, um exemplo a ser seguido por todos os governadores que queiram diminuir o número de acidentes de trânsito em seu Estado. Nem mesmo eu, que repudio essa onda politicamente correta que tomou conta do mundo nas duas últimas décadas, consigo encontrar argumentos razoáveis para criticar o raio dessa Operação.
Tudo bem, vá lá, não concordo com o princípio político no qual a Operação Lei Seca se ampara. Sou a favor de um Estado menos controlador, que dê o máximo de liberdade aos cidadãos e puna exemplarmente quem fizer mau uso dessa liberdade. Não acho certo o poder público interpelar motoristas que não cometeram infração sob o pretexto de que poderão vir a cometer. É arbitrário. Mas o governador do Rio de Janeiro tem os números ao seu lado. Desde que a Operação Lei Seca entrou em vigor a quantidade de vítimas em acidentes de trânsito diminuiu cerca de 30% na cidade do Rio de Janeiro. É uma redução considerável. Logo, conclui-se: bafômetro neles! – ou melhor, em nós, pobres boêmios, oprimidos pela onipresença de policiais armados com a geringonça em todos os cantos da noite carioca.
Se estatisticamente não há argumentos, deixemos a numeralha de lado. Hora do desabafo: “Cabral, meu velho, qualé a sua? Você está querendo apaulistar o Rio, pô? Deixa esse negócio de enquadrar boêmio pro Serra. Ele, sim, é dado a esses arroubos de autoritarismo, a essas perseguições implacáveis a fumantes, bebuns e hedonistas em geral. O paulistano, que é muito mais certinho que nós, deve até apoiar medidas do gênero. Mas aqui as coisas são diferentes, governador. Esse negócio de choque de ordem não combina com o ‘carioca way of life’. Não dá voto, não. Somos um povo irreverente, leve, bagunceiro por natureza. Como escreveu certa vez o poetinha Vinícius de Moraes “ser carioca é antes de mais nada um estado de espírito [...] Mais que ter nascido no Rio, é ter aderido à cidade e só se sentir completamente em casa em meio à sua adorável desorganização.” Quem quiser ordem e organização, na boa, que se mude pra Suíça.
O Rio foi feito pro samba, pro chope, pra azaração, pra noite, pro happy hour. É uma cidade com vocação para a boemia. Por favor, governador, não acabe com mais essa instituição carioca! Olha só: eu moro em São Paulo – sim, sou mais um exilado econômico – e nem lá a perseguição aos boêmios é tão radical. Há meses não vejo blitz etílicas na cidade. Pra que, então, ser mais real do que a realeza? Tá certo que alguma coisa precisava ser feita para coibir o instinto assassino dessa molecada inconsequente que enche a cara e sai aprontando no trânsito. Mas, poxa, fazer com que todo mundo pague o pato é sacanagem, né? A porcaria do bafômetro não livra a cara nem de quem tomou só uma cervejinha, de quem só quer curtir a noite do Rio de janeiro e aproveitar o que ela tem de melhor. É brincadeira, né? Lá no íntimo, nem o seu pai, que é um bom boêmio que eu sei, deve ter ficado feliz com essa Operação Lei Seca. Cabral, meu caro, aproveita que 2010 tá começando e, de fininho, diminui o número de blitz, vai… Acredite, é pelo bem do Rio e dos verdadeiros cariocas.”
Por ora, cada um vai se virando como como pode para evitar encheção de saco na noite do Rio. Eu tenho optado por encarar as baladas de taxi – seja o Rio Scenarium, na Lapa, o Zozô, na Urca, ou o Londra, em Ipanema. Há quem prefira esticar a noite e só voltar pra casa depois das seis da manhã quando todas as blitz já foram desmontadas. Fiz isso algumas vezes, mas prefiro voltar de taxi na hora que me der vontade. Não é tão ruim quanto parece. Atrapalha pouco.
O que não rola de jeito nenhum é sair de taxi para um programa a dois. Esse, para mim, é de longe o maior inconveniente da Operação Lei Seca. Sair de taxi para beber com os amigos ou para tentar a sorte na night ainda vá lá, mas convidar uma mulher para sair e passar na casa dela de taxi é o cúmulo da falta de cavalheirismo, da ausência de romantismo. Também está fora de cogitação sair de carro e não beber. Corta o clima do encontro. Ninguém vai encher a cara num jantar a dois, mas um bom vinho ou algumas doses de saquê para acompanhar o sushi fazem parte do, digamos assim, ‘ritual de acasalamento’.
Todas as vezes que eu convidei uma menina para jantar ou para tomar um drinque Pós-Operação Lei Seca eu assumi o risco e saí de carro. Nunca fui parado. Mas passei por blitz etílicas duas vezes. Em ambas, acendi a luz interna do carro, fiz cara de homem sério, de senhor de família que não deve nada a ninguém e escapei ileso, sem ser parado. Foi sorte. Tenho vários amigos que já viram o bafômetro de perto. Uns, sopraram e se foderam – prisão, carteira apreendida, processo penal sujeito a detenção de seis meses a três anos. Outros, exerceram o direito constitucional de não soprar e, no frigir dos ovos, só perderam a noite. Mas ainda assim é desagradável.
Atualmente, eu dirijo menos preocupado. Não que as blitz tenham diminuído. Elas continuam impregnando a noite do Rio. Mas agora eu consigo saber previamente a localização delas e me desviar a tempo. Como? São Twitter. Eu, que sempre desprezei essa rede de miniblogs por achar que não passava, como eu dizia, de uma ferramentinha para desocupados escreverem inutilidade, dou meu braço a torcer. É, como Pedro Dória escreveu em sua coluna (http://www.estadao.com.br/tecnologia/link/not_tec3274,0.shtm), a coisa mais importante que surgiu na internet desde o Google.
Com uma versão do programa instalada no meu smartphone consigo monitorar a localização de cada uma das blitz e me desviar com antecedência. Isso porque um grupo de motoristas criou uma conta (www.twitter.com/LeiSecaRJ) para que os próprios usuários pudessem ao mesmo tempo informar e se informar sobre o paradeiro das Operações Lei Seca. Tremenda sacada. Isso, sim, é a cara do Rio! Dá gosto de ver a capacidade do carioca de, assim como no ‘verão do apito’, driblar os obstáculos com criatividade, irreverência e cinismo. Adoro gente cínica, povo cínico! Afinal, essa conta do Twitter, como escrito em um dos posts, é apenas para que as pessoas se previnam dos congestionamentos causados pelas blitz, não é mesmo?
Que assim seja!
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Gozações e sacanagens sempre fizeram parte do universo infanto-juvenil.
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Rio é sexo. São Paulo, amor.
São Paulo acolhe. O Rio expele.
São Paulo é dinheiro. Rio é fevereiro.
Rio é superficial. São Paulo é denso.
Rio é original. São Paulo simulacro.
O Rio sou…
Sou carioca. Moro em São Paulo. Prefiro o Rio, mas tão cedo não sairei de São Paulo. Sou um exilado econômico. Neste exílio de quase sete anos passei a dar ainda mais valor ao Rio. Mas também descobri que Sampa tem lá seus pontos positivos. O principal deles é que, de todas as metrópoles do mundo, São Paulo é a única que…