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O Segredo da Picaretagem

Postado por , domingo, 11 de janeiro de 20093 Comentários

O mercado de autoajuda movimenta cerca de 10 bilhões de dólares por ano só nos Estados Unidos. São cifras que atraem toda sorte de charlatões. Livros e filmes como  ’O Segredo’ e ‘Quem somos nós’ atingem em cheio aqueles que por fraqueza, conveniência ou inapetência intelectual se deixam levar por sofismas do tipo “é preciso crer para ver” ou “você cria sua própria realidade”. Mentira. Não cria. Só os esquizofrênicos criam a própria realidade – um mundo que só existe na cabeça deles. Fico constrangido em ver amigos perderem tempo e dinheiro com ilusões do gênero.

Concordo que nem todos os autores de autoajuda agem de má fé. Há também os que acreditam nas tolices que publicam. O DataDu, Instituto Kadu de Pesquisa e Estatística, estima que para cada dez autores picaretas existam oito que se autoenganam e apenas dois que prestam um serviço de qualidade. Em outras palavras, 90% deturpam a realidade e contribuem para disseminar inverdades. Apenas 10% são sérios.

Não é o caso de Rhonda Byrne e JZ Knight, produtoras de ‘O Segredo’ e ‘Quem Somos Nós’ respectivamente. Ambas são picaretas. Afirmo isso com a ênfase e a segurança de quem assistiu duas vezes ambos os filmes e leu o livro homônimo que Dona Rhonda escreveu para faturar mais alguns milhões.

A primeira vez que assisti Quem somos Nós e O Segredo foi por curiosidade. Queria ter certeza de que, como supunha, não passavam de dois filmes rasos e mentirosos. A segunda vez foi para escrever este texto, motivado por uma longa conversa de bar. Nela, duas amigas insistiam enfaticamente que as duas obras tinham cunho científico. Tentei mostrar como os filmes são repletos de mentiras e sofismas mas minha paciência com pessoas que nem ao menos escutam os argumentos contrários é curta. Acabei me irritando com uma delas e disparei: ”Você quer saber mesmo qual é o Segredo? Eu lhe digo. O Segredo é que o mundo está cheio de pessoas estúpidas como você que pagam quarenta reais para serem enganadas. A tal da Rhonda Byrne descobriu esse segredo e ficou milionária. Já você vai passar a vida inteira ganhando um salário de merda e se alimentando de ilusões. Bom proveito!”  A menina chorou. Eu me senti um monstro e acordei com uma dupla ressaca – física e moral.

Depois de me desculpar pela grosseria, resolvi me aprofundar ainda mais no tema. Pretendia escrever uma uma grande reportagem sobre O Segredo e Quem Somos Nós. Não foi preciso. Enquanto levantava informações e verificava a existência de comprovações científicas para cada uma das afirmações de ambos os filmes deparei com o blog O Dragão da Garagem, escrito por dois engenheiros brasileiros, Alexandre Taschetto e Widson Porto Reis. Em dois longos mas não-cansativos posts eles mostram cena a cena cada uma das mentiras e incongruências dos filmes. Trabalho de primeiríssima qualidade.

Não são reportagens, com texto jornalístico e entrevistas, como eu pretendia fazer, mas a qualidade dos argumentos e o nível de profundidade com que Alexandre e Widson rebatem cada uma as falácias de Dona Rhonda e seus sequazes superam qualquer texto que eu pudesse escrever a respeito do tema.

Sobre o filme Quem Somos Nós, em O Guia Cético para Assistir What the Bleep do We Know?

Sim, “Quem Somos Nós” é um filme que engana deliberadamente quem o assiste porque oferece a ele um suposto encontro entre ciência e espiritualidade mas em vez disso entrega um frankenstein torto e desconexo de ciência de desenho animado, pseudociência e autoajuda, que a maior parte do público leigo não está equipada para identificar. Assistir a “Quem Somos Nós” esperando ver um casamento entre ciência e espiritualidade é como observar alguém tentando encaixar cubos e tetraedos em orifícios circulares; para encaixar-se às crenças esotéricas de seus idealizadores, cada simples fato científico usado em “Quem Somos Nós” precisou ser vergado, torcido e marretado com força.

Sobre o filme O Segredo, em O Guia Cético para Assistir O Segredo.

[...] Este foi um dos artigos mais difíceis que já escrevi para o Dragão da Garagem.
Não que algum argumento de “O Segredo” tenha sido particularmente desafiador. Foi justamente o contrário. Comparado a “What a Bleep Do We Know”, que fazia um bom trabalho tentando se disfarçar de documentário científico, “O Segredo” trata a ciência de forma tão infantil que na maior parte das vezes eu me via sem saber nem como começar a rebater as alegações do filme. Era como ter que explicar que não é um anão dentro da máquina de coca-cola que conta o dinheiro e coloca as latinhas na fenda.

Em suma, eu recomendo a todos a leitura integral dos dois guias. Os argumentos de Wilson e Alexandre são definitivos. Encerram o assunto.

* * *

Se depois de ler os guias de O Dragão na Garagem você ainda acreditar nas tolices de O Segredo e Quem Somos Nós, eu só lamento. Não há mais diálogo possível entre nós. Eu prezo a verdade. Você precisa de sonhos e ilusões. Eu não gosto de ser enganado. Você aceita ser enganado em troca de promessas e esperanças de um futuro melhor. Eu me baseio em fatos, evidências e argumentos racionais para acreditar em algo. Você prefere acreditar no que mais lhe agrada, a despeito da razão, da lógica e da coesão dos acontecimentos. Perdoe-me a franqueza, mas você não quer enxergar a realidade. Está se recusando a pensar. Age como um símio, por instinto. E isso não é só covardia, é estupidez, inconseqüência e, pior, não muda o estado das coisas. A realidade independe da nossa vontade.

Os autores de autoajuda mal-intencionados tentam convencer as pessoas do contrário, dizendo exatamente o que elas gostariam de ouvir, ou seja, que irão ter o que querem se pensarem positivo, meditarem, repetirem mantras, plantarem bananeira ou seguirem a alguma receita milagrosa. É uma estratégia suja, mas eficaz. Mesmo indivíduos emocionalmente equilibrados tendem a aceitar com mais facilidade ideias que lhe são agradáveis.

Para não cair no conto desses pseudo-gurus é preciso estar atento. Sempre que alguém lhe apresentar uma nova teoria ou ponto de vista, antes de formar sua opinião, faça duas perguntas para si mesmo:

  • Isto é algo que eu gostaria que fosse verdade?” Se for, aumente ainda mais sua dose de ceticismo e senso crítico para evitar que seu desejo interfira na avaliação racional da nova ideia.
  • Que motivos ou evidências eu tenho para acreditar nisso?

São questionamentos simples mas que podem evitar que sejamos enganados por charlatões e por nossos próprios desejos.

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3 Comentários »

  • Stella Dauer disse:

    Eu sempre tive uma opinião parecida quanto a esse tipo de livro. Por influência da minha avó, que comprava todos os que via (inclusive os da Editora Madras, que são lixos em formato de livro), cheguei a comprar alguns. Como adolescente insegura tentando me encaixar no mundo, ser aceita pelos outros, eu busquei algo nesses livros, algo que pudesse me guiar, me dar “dicas matadoras” de como deixar de ser tímida, de como parar de me culpar por tudo o que acontecia de ruim às pessoas que eu gostava.

    Todos os livros que eu tentei ler não me mostravam nada de novo. Coisas como “acredite em você”, “seja feliz”, “tenha amigos”, “pare de procrastinas, se levante e faça logo”… tudo isso não era nada mais além do que eu já sabia. O que acontecia comigo, assim como com essas pessoas que buscam esses livros, é que era difícil enxergar que toda a mudança dependia de mim mesma. Nenhum livro iria me dar a receita mágica de como conseguir passar no vestibular, como garantir um futuro legal pra mim, como ser feliz com o que eu era. Se na minha cabeça eu não conseguisse aceitar o que eu era, nenhum livro tonto iria mudar isso.

    Esses livros são para pessoas que pensam que há algo que elas não sabem, algum mantra que, se recitado, vai fazer aparecer um namorado romântico, dinheiro na conta, um emprego decente e filhos mais educados. Eu realmente me decepciono com esses livros, a cada um deles que eu folheio, porque encontro as mesmas coisas óbvias escritas de maneiras diferentes. Existem pessoas que não enxergam o óbvio, que compram esses livros e se consideram modificadas por eles, salvas por eles. Minha decepção é maior ainda por saber o que essas pessoas não sabem, que não há nenhum Segredo… essas pessoas tem medo de admitir que o grande erro, a grande decepção, não passado que elas veem quando se olham no espelho. Essas pessoas não querem atribuir a si mesmas os erros e percalços da vida delas. Com a religião não é diferente.

    É muito mais fácil falar que você estava cega e se salvou com uma filosofia da moda do que admtir que você é fraco, influenciável e incapaz de operar a própria mudança em sua vida. É muito mais fácil falar que Deus está te castigando do que perceber que você não tem a vida que quer porque não tem colhões para ir atrás dos seus sonhos. Eu era só uma adolescente boba que achava que sabia tudo… mas essas pessoas maduras que continuam levando isso tão a sério?

    Vou ler as críticas quando arranjar um tempo, obrigada Kadu.

  • Gabriel Navarro disse:

    Certa vez, um genial internacionalista me apresentou o anti-Segredo, modo de pensar que eu já praticava sem perceber.

    Basicamente, a ideia é ter sempre em mente o que pode acontecer de pior a você e frustrar seus planos. Não é preciso expor esse suposto negativismo – na verdade, não é sequer socialmente recomendável. O ato simplório de vislumbrar as possibilidades ruins prepara alguém para evitá-las, lidar com elas ou (pelo menos) aceitá-las com menor revolta, para então investir seu tempo em algo melhor ou reparador.

    Em particular, não acredito na pura racionalidade nem a desejo. Mas minha fé é muito definida: para o mundo prático, material, busque soluções práticas, materiais.

    Grande abraço, Kadu!

  • Veridiana disse:

    Adorei o texto, bem como o comentário do Gabriel. Eu sempre penso em todas as possibilidades, inclusive nas piores, e com isso me sinto mais equilibrada para enfrentar o que vier. Odeio quando alguém está numa situação difícil e me pergunta: vai dar tudo certo, né? Sei lá! Pode dar tudo errado! Mas se a pessoa estiver preparada, pode não ser tão ruim…

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