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Bullying é o cacete!

Postado por , terça-feira, 21 de abril de 20092 Comentários

bullyingNão aguento mais esse papo bullying. Toda semana surge uma nova reportagem sobre o tema. Em quase todas o bullying é apontado como um problema social grave e recente. Não é. Nem grave. Nem recente. É natural e existe desde que jovens e crianças começaram a andar em grupo.

Gozações e sacanagens sempre fizeram parte do universo infanto-juvenil. A diferença é que hoje vivemos num mundo politicamente correto, pretensamente civilizado, repleto de arautos da boa conduta cuspindo regras de como devemos agir, falar, se comportar e pensar. Neste novo mundo, dizem os manuais, é infração gravíssima uma criança chamar o amigo gordinho de rolha de poço, o afeminado de boiola e o quatro-olhos de quatro-olhos. O risco, garantem os patrulheiros de jardim de infância, é traumatizar o colega pelo resto da vida.

Conversa-fiada. Papinho pra boi dormir. As pessoas enfrentam dificuldades e passam por situações embaraçosas em todas as fases da vida. A superproteção na infância não só não prepara a criança para adversidades maiores, como também não resolve o problema pelo qual ela está passando. Ou alguém duvida que os coleguinhas continuarão zoá-la mesmo depois de repreendidos pelos professores?

Não adianta a escola, os educadores, a sociedade e as ongs protetoras de ‘bulinados’ defenderem as crianças zoadas dos amiguinhos ‘malvados’. É uma superproteção ilusória. As zoações continuarão longe das vistas dos ‘mais velhos’. Os moleques sacaneados precisam aprender a se defender sozinhos. Se não os incentivarmos a enfrentar os obstáculos e lutar para serem respeitados, formaremos uma legião de bundas-moles, adultos pusilânimes que dependerão sempre de terceiros para fazerem valer seus direitos.

Fui vítima de bullying. Até os nove anos estudei num colégio de freiras em Teresópolis, cidade do interior fluminense. Com a mudança para a capital, fui estudar no finado Instituto Souza Leão. Com certeza, meus pais não faziam idéia de onde estavam me jogando. Se ainda existisse, o colégio encabeçaria a lista negra dos bastiões do bom comportamento. Lá, bullying era prática recorrente. Corredor polonês, modalidade esportiva. Enquanto nos Santo Inácios da vida os bad guys da turma jogavam bolinhas de papel nos colegas, os do Souza Leão arremessavam mesas, cadeiras e apagadores. Além disso, levavam tomadas com fios desencapados para dar choque nos ‘amiguinhos’ – cadeira elétrica era o nome da brincadeira.

No começo foi foda. Tímido e gordinho me tornei o alvo preferido das zoações. Tomei muita porrada em brincadeiras brutas e violentas das quais eu nunca tinha ouvido falar. Entre uma sacanagem e outra, percebi que, se eu quisesse sair daquela situação, tinha que mudar de colégio ou de atitude. Meu pai me convenceu a ficar com a segunda opção.

Comecei a devolver as provocações. Se me xingavam, eu xingava de volta. Se me sacaneavam, eu devolvia com uma sacanagem pior. Se me ameaçavam, eu encarava. Se me empurravam, eu socava a cara do garoto. Chute no saco e dedo no olho passaram a ser meus cumprimentos prediletos. Em um ano virei o jogo.

Devo ao Souza Leão parte do que sou hoje. Mais do que qualquer outro colégio, ele me preparou para as adversidades da vida. Lá aprendi a me defender, a ter jogo de cintura e agilidade verbal. Aprendi que só dá a outra face quem quer tomar uma porrada ainda mais forte. Aprendi a saber a ora de ser truculento e a ora de ser afável. Aprendi que às vezes um soco vale por mil palavras e que outras vezes meia palavra basta. Acima de tudo, aprendi a me impor e a me fazer respeitar.

Não estou dizendo que todas as escolas deveriam ser como o Souza Leão – o que seria dos edifícios brasileiros se todos os engenheiros tivessem passado por escolas do gênero? Tampouco defendo que pais e educadores fiquem de braços cruzados ao verem um garoto sendo sacaneado na escola. Mas não é superprotegendo a criança da ‘maldade’ de seus coleguinhas que se resolve o problema. A solução depende mais de uma mudança de postura da ‘vítima’ do que da conscientização ou da punição dos ‘algozes’. Não é a sociedade que se adapta aos indivíduos. São os indivíduos que precisam aprender a viver e sobreviver em sociedade.

Se hoje eu não sou mais um dos tantos bundas-moles que existem por aí – e eu tinha tudo para ser – é porque meu pai, em vez de ir reclamar no colégio das porradas que eu tomava, me ensinou a brigar e me incentivou a revidar. O mata-leão, que ele chamava de gravata, foi o primeiro golpe que aprendi. Depois vieram outros: arm lock, triangulo, chave de perna. Sempre usados com moderação, seguindo um dos tantos ensinamentos do velho: “Nunca procurar briga, mas enfrentar feito homem as que aparecerem pelo caminho”. É isso que deveriam ensinar às vítimas de bullying.

EM TEMPO:

Soube, por um artigo que a Fernanda Torres escreveu para Veja Rio, que ela e João Estrela, personagem real do filme Meu Nome não é Johnny, também foram alunos do Souza Leão. Segundo ela, o próprio João reconheceu que ter estudado no Souza Leão o ajudou muito a sobreviver na prisão. Não fico surpreso. Já me safei de muita situação complicada graças ao jogo de cintura que os 10 anos de Souza Leão me deram.

Lá, como em qualquer escola experimental da época, o clima de permissividade reinava. No corpo discente, artistas mirins, filhos de artistas, desajustados e desavisados. Além da Fernandinha, passaram pelas salas de aula do Souzão Pedro Cardoso, Marcelo Serrado, Letícia Spiller – uma delícia, em sua fase pré-Babalu, paquita-pastel -, Alexia Dechamps, uma menina roliça que nem mesmo o mais otimista dos coleguinhas poderia supor que um dia seria capa de Playboy, Daniela Perez, entre outros. No corpo docente, além das psicólogas fumantes, alguns bons professores com formação humanísta e nenhum poder disciplinador. Resultado: os alunos se formavam com pouquíssimo-íssimo-íssimo conhecimento em ciências exatas e biológicas (química, física, biologia etc), uma consideravel bagagem cultural, fruto das boas aulas de história, geografia e literatura, e uma gama de outros aprendizados que iam desde
rapidez de raciocínio, malandragem e agilidade verbal até ‘como fazer bombas e explodir privadas’.

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2 Comentários »

  • Luciano Boiteux disse:

    Eu também estudei no Souzão. Também comecei minha vida acadêmica lá apanhando e terminei batendo. Tive grandes professoras, como a Joracy e o Padilha, e péssimos exemplos, como a psicóloga que me perguntou porque eu não reagia à pancadaria ao invés de reclamar com a Dona Yeda.

    Por causa dela, passei a distribuir porrada a cada olhar torto, já prevendo que a provocação poderia virar briga. Eu me adiantava…

    Também acho que a luta pela sobrevivência com dignidade naquele colégio de certa forma me preparou para a vida. Lá, ou você era otário, ou desajustado. Não havia um meio termo, porque ninguém nunca parou para pensar em EDUCAÇÃO, de verdade.

    Fiquei de 79 a 85 e acho que a permanência no meio das feras ajudou a formar minha personalidade, a saber avaliar melhor as pessoas à minha volta. Ou não.

    Gostei muito do seu texto. Enviei-o para meus irmãos, que também estudaram no Souza Leão. E para amigos que ouvem minhas histórias e acham que não estou falando a verdade quando digo que cadeiradas, brigas de apagador, corredor polonês e diretoras omissas eram aperitivos para a vida.

    Grande abraço!

  • Eusss disse:

    Entao saimos muito na porrada. Hoje faço parte Da maior torcida organizada do mais querido do brasil e tuda porradaria que enfrento pela frente com certeza aprendi ali nos campos do Souzao.
    Sacaneava todo Mundo mesmo…horrorizava osmmais fraquinhos…entrei la dando enfiando a porrada ja no primeiro diamdiamemfoimassim ate o ultimo, por pouco nao comi na porrada o Celso Inspetor.
    Glorias e glorias ao grande souzao entra burro e sai ladrao!!!

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