Viajar pra quê?
Estou em férias e para a indignação de amigos e conhecidos não vou viajar. Não quero perder tempo me deslocando freneticamente em latitudes e longitudes. Viajar já não me encanta tanto. Muita gente se espanta com isso. ‘Como alguém pode não querer viajar?’, alguns esbravejam. ‘Deve ser por falta de grana’, concluem outros. Não é. Se quisesse, poderia ir para Londres, Madri ou Paris. Mas a Europa não me motiva tanto quanto a possibilidade de exercitar meu cérebro, ampliar meu conhecimento e avançar em questões que me inquietam.
Já viajei muito. Estive em lugares fascinantes. Mas hoje tenho a impressão de que tudo se repete em coordenadas diferentes. Todas as praias do mundo – e já estive em tantas – se diferenciam muito pouco entre si. Desertos, museus, cataratas, feiras, lojas, espetáculos, idem. A cada viagem uma nova sensação déjà vu. Não que isso seja ruim. Viajar entretém, mas não necessariamente é o que há de mais interessante para se fazer nas férias.
Há três anos fiz uma das maiores viagens de minha vida. Aproveitei as férias para ler Crítica da Razão Pura. Foi uma experiência única. Nenhum lugar do mundo me causou tanto impacto quanto a obra de Kant. Não é o tipo de livro que se lê entre uma coisa e outra ou à noite depois do trabalho. Exige dedicação. Transpiração. Reflexão. Exige que voltemos a outros autores, que leiamos comentadores, que pensemos por horas, às vezes dias, sobre determinado trecho antes de avançar uma página. É uma tarefa extenuante mas regozijante, capaz de ampliar para sempre nossa percepção de mundo. Hoje, se eu tivesse que escolher entre apagar da minha vida Crítica da Razão Pura e Paris, escolheria Paris, sem drama de consciência.
Outros livros de outros filósofos já me causaram sensação semelhante. Mas nunca com tanta intensidade. Em parte, creio, porque Kant é um filósofo único. Mas em parte também porque fora a primeira vez que eu me dedicara exclusivamente à leitura de um livro. Li Crítica da Razão Pura respeitando o tempo de absorção de cada informação e refletindo profundamente sobre cada proposição. Fiz uma verdadeira imersão na obra de Kant – algo impossível de ser feito em conjunto com as atribulações do dia-a-dia.
Desde então passei a dar muito mais valor às minhas férias. É o tempo que tenho para me dedicar às descobertas intelectuais. Isso não quer dizer que eu nunca mais vá viajar. Há lugares que eu ainda gostaria de conhecer, outros que pretendo voltar, mas fazer de um mero deslocamento geográfico o principal objetivo de todas as férias é limitar demais as experiências possíveis.
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Fala Kadu..e’ essa inercia que te persegue desde a aborrecencia..
Abs.
Concordo plenamente com vc. E acho que, muitas vezes, as pessoas viajam mais pra contar pros outros e para exibir fotos, do que por elas mesmas. Quem nunca ouviu um amigo comentar que teve q correr para conhecer 10 lugares turísticos no mesmo dia? Se ele aproveitou? Eu, sinceramente, acho que nem tanto… Os livros deslocam a nossa mente, concordo. Me senti como vc qdo li “A metamorfose”. Eu ainda tenho um plano fantástico de viagem interna pra realizar. Alugar uma casa no meio do mato, sem tv, sem som, sem internet. Só eu e eu. E sem livro. A leitura vai ser complemanete intrínseca. Vamos ver. Ou volto louca ou volto mais forte! Bjs
Eu discordo, cara. Para mim, férias não é ficar lendo um livro. Tem que aproveitar, para mim é fazer uma grande viagem, onde eu possa me divertir muito, ou qualquer outra coisa que não seja ficar no tédio de ler um livro eu já faço isso na escola. Mas se você se diverte nas suas férias fazendo isso, lendo um livro (que eu não entendo como você consegue se divertir e qual é a diversão, com todo o respeito), eu respeito, mesmo sem entender, pois cada um se diverte do jeito que quizer. Também li sua resposta e passar um ano nos livros? aaah, socorro isso acabaria comigo, nem que fosse obrigada! Mas enfim, adorei seu blog, fala sobre variadas coisas interessantes.
Abs,
Louise.
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