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Carta de um torcedor inveterado

Postado por Kadu Palhano, domingo, 30 de agosto de 20092 Comentários

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Não aguento mais sofrer pelo Fluminense. A cada jogo uma nova decepção. Dói ver o time da gente sem rumo, ou melhor, rumo à segunda divisão. Como disse, na carta que reproduzo abaixo, escrita dias após a perda da Libertadores, preferia não gostar tanto de futebol. Mesmo.


Carta de um torcedor inveterado

Amigos,

Semana passada quebrei o nariz de um rapaz de 25 anos. Não queria ter feito isso. Não gosto de briga. Tenho desprezo por pitboys. Mas o rapaz, que eu não conhecia, escolheu o cara errado para tirar sarro pela derrota do Fluminense na final da libertadores.

Ele era amigo de um amigo. Ambos flamenguistas. Encontrei-os num bar do Leblon, dois dias após a final da Libertadores. Eu estava triste, apático. Meu amigo sabia a razão mas, em respeito à minha dor, não tocou no assunto. Por 10 minutos, entre um chope e outro, jogamos conversa fora. Não tive tempo de formar opinião sobre o garoto. Era um pouco marrento – mas qual carioca de vinte e poucos anos não se enche de marra para esconder as inseguranças juvenis?

Faltou-lhe, – isso, sim! – sensibilidade. Não foi capaz de perceber que a minha relação com o futebol era diferente da dele. Eu não admito zombarias. Não permito provocações. Assim como não as faço também. Mesmo quando o Flamengo perdeu de 3 x 0 para América do México, em uma das derrotas mais acachapantes que eu já vi na vida, eu não sacaneei um único flamenguista. Fiquei feliz? Claro. Muito. Ver o Flamengo perder é uma emoção quase tão grande quanto ver o Fluminense ganhar. Mas respeitei a dor daqueles que sofriam. Não tripudiei. Não enviei um único email para amigos flamenguistas. Nem sequer um torpedinho. Apenas, dividi minha alegria com outros tricolores.

Reação muito diferente teve o jovem amigo de meu amigo. Quando soube o motivo da minha tristeza, começou a fazer troça. Pedi que parasse. Ele insistiu em escarnecer. Meu amigo o aconselhou a parar. Ele não deu lhe ouvidos. Tentei mudar de assunto. Ele não deixou. Elevei o tom de voz. Ameacei. Tudo em vão. Foi preciso um soco para que ele se calasse.

Não reagiu. Ficou ao chão, com um olhar medroso. A mão, sobre o nariz, escondia o sangue que começava a escorrer. Acho que senti pena. Talvez, um pingo de remorso. Fiquei surpreso, também. Não imaginava que aos 35 anos ainda fosse capaz de uma reação tão impulsiva.

Nunca fui briguento, mas já briguei muito na vida. Não tenho paciência para ficar ladrando impropérios ao ar, nem sangue de barata para passar por cima de ofensas e humilhações. Não vejo diferença entre agressão moral e agressão física. Uma agressão moral pode, inclusive, causar mais estrago que uma física. Portanto, sempre que sou vítima de uma ou de outra me sinto no direito de revidar com a que eu julgar mais conveniente.

É uma decisão rápida – “Como reagir diante da agressão?” -, que deve ser tomada numa fração de segundo mas, nem por isso, no meu caso, costuma ser uma decisão irracional. Na maioria das vezes, antes de desferir um soco em alguém, reflito por microinstantes se esta é mesmo a melhor coisa a ser feita.

Não foi o que aconteceu naquela noite. O soco que dei no rapaz foi inteiramente instintivo. Visceral. Com sua troça e zombaria, ele trouxe à tona toda gama de sentimentos conflitantes que o jogo me impingiu. Em meio ao deboche e ao escárnio, lembrei-me da festa que a torcida fez no Maracanã, da revolta que senti com a não-marcação do penalti em Washington, da decepção com o primeiro gol da LDU, da explosão de alegria em cada um dos gols de Thiago Neves, da agonia em ver o tempo passando e o quarto gol não saindo, da esperança que o gol do título sairia na prorrogação, do desespero dos pênaltis, da amargura da derrota, da sensação de que nada daquilo era verdade, do choro copioso da criança ao meu lado, do silêncio cortante na saída do Maracanã, das lágrimas secas que não escorreram do meu rosto, do desencanto com a vida. Quando percebi minha mão já tinha atingido o rosto do rapaz com a força de todas as minhas emoções.

Saí do bar e fui para casa dormir. Não consegui. Fiquei na cama remoendo os acontecimentos recentes. Comecei a escrever este texto. Queria traduzir tudo o que eu estava sentido. Pretensão passageira. Logo, desisti.  Só hoje, mais de dez dias depois, consigo olhar com um certo distanciamento tudo o que se passou naquela primeira semana de julho de 2008. Ainda assim, mais semanas serão necessárias, talvez meses, para que todas as cicatrizes se fechem.

Gostaria que não fosse assim. Preferiria, sinceramente, que o futebol não fosse algo tão importante na minha vida. Gostaria de ser como tantos amigos que até torcem e vibram com seus respectivos times, mas que não sofrem em demasia com os revezes. Meu pai era assim. O velho torcia para o Fluminense, mas as vitórias ou derrotas do time não abalavam seu estado de espírito. Ganhou, ótimo. Perdeu, paciência. Ele jamais faltaria ao trabalho, nem gastaria mais de cinco mil reais em passagens e ingressos para ver o time jogar. O Fluminense era pequeno em sua vida.

Comigo nunca foi assim. ‘Meu sentimento clubístico’, como disse Nelson Rodrigues, ‘é anterior ao sexo, anterior à memória’. Deve ter nascido comigo. Deve estar impresso de modo indelével em meu código genético. Infelizmente. Quisera eu ter o poder de me livrar dessa sina de torcedor inveterado, de não mais sentir este amor incondicional, doentio por um reles time de futebol. Mas não consigo. Não depende da minha vontade, nem de nada que eu possa fazer. Estou condenado a amar o Fluminense por toda a minha vida. Estou condenado à entrega, ao sofrimento dilacerante e a algumas, poucas, alegrias indescritíveis. Não compensa.

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2 Comentários »

  • Stella Dauer disse:

    Por isso eu torço pro Santos, time que te ensina a não comemorar por muito tempo as vitórias e lembrar por pouco tempo das derrotas.

  • Antonio Werneck disse:

    Kadu,
    achei uma Santista aqui!!! Raro e importante evento.
    Como santista de mais de 40 anos achei perfeito o comentário da Stella.

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