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Eu, Weber, meu neto e o Fluminense

Postado por , domingo, 3 de março de 2013Sem Comentários

Reinaldo é um grande amigo. Tem 54 anos, é um bem-sucedido empresário, torce pelo Fluminense e vive um drama. Sua única filha, Camilla, casou-se com um flamenguista. Nossa amizade já dura 13 anos. Além do amor ao Tricolor, temos forte afinidade intelectual. Futebol, filosofia, mulher, cultura e economia são temas que sempre permeiam nossos encontros. Mais discordamos do que concordamos. Ele gosta de Nietzsche. Eu prefiro Kant. Ele curte Bach. Sou mais Mozart. Ele é louco pela Juliana Paes. Eu como. Mas prefiro mulheres com mais charme e garbo. Eu bebo uísque. Ele, vinho. Sou keynesiano. Ele acredita na mão invisível de Adam Smith e na habilidade, também invisível, do Diguinho.

Ao longo de nossa amizade, não foram poucas as vezes que fui a ele pedir orientação. Seus conselhos, revestidos de experiência e serenidade, foram muito úteis em vários momentos da minha vida e carreira. Semana passada foi ele quem me procurou para trocar ideias. Estava angustiado. Precisava conversar. Acabara de descobrir que Camilla estava grávida. Iria se tornar avô, o que o deixou bastante feliz e emocionado. Horas depois, entretanto, deu-se conta de que seu primeiro neto corria o risco de se tornar flamenguista.

Nossa conversa serviu de inspiração para a crônica abaixo. É um relato em primeira pessoa. Escrevi como se eu fosse o Reinaldo. Não foi difícil. Além de conhecê-lo bem, compadeço de sua dor. Não tenho filhos, mas me causa arrepios imaginar meus descendentes contaminados pelo vírus Mulambus Infectus. Sinto como minhas a preocupação e a angústia do meu amigo. Sem mais delongas, vamos ao seu desabafo:

“Minha filha se casou com um flamenguista. Não é algo que me encha de orgulho mas, tenho que admitir, o rapaz foge à regra. É alfabetizado, tem caráter, dente e come com garfo e faca. Só que ele não é um flamenguista comum, de araque, desses que não liga para futebol. É engajado, vai aos estádios, acompanha os jogos, vibra e sofre com as vitórias e os revezes do coisa ruim.

Apesar disso, nunca discutimos. Ele não é burro de brigar com o sogro. Futebol se tornou um tema tacitamente proibido em nossos almoços de família. Ele sabe do meu amor incondicional pelo Fluminense. Eu, de seu desvio de personalidade. Mas não tocamos no assunto. Minha filha agradece.

Na verdade,  nunca fez parte da minha conduta futebolística provocar ou tirar sarro dos adversários. Em contrapartida, também não admito que me sacaneiem. Em tempos idos, já briguei fisicamente e cortei relações com alguns conhecidos que enveredaram por esse caminho. Torcedor de verdade sabe a dor que uma derrota impinge. Não sacaneia. Respeita.

É claro que vibro com os tropeços e vexames da urubuzada. Ver o flamengo na lama me enche de satisfação. Traz à tona meus sentimentos menos nobres e mais perversos. Entretanto, jamais liguei nem mandei torpedos para provocar um favelado – nem mesmo depois daquele memorável 3 x 0 que o América do México meteu no flamengo, em pleno Maracanã, numa das derrotas mais acachapantes que já vi na vida (gracias, Cabañas!).

Até onde eu saiba, meu genro também não é dado a provocações. Pelo menos ao meu lado ele não se atreve a falar mal do Fluminense. Tem juízo. E um pouco de medo também – o que, cá entre nós, faço questão de cultivar. É bom ele suspeitar que, se sacanear minha filha, vira espetinho de urubu.

Isso, no entanto, não impede que travemos uma guerra velada nas redes sociais. Sim, sou coroa mas tenho Facebook. Gosto da geringonça. Serve para eu acompanhar os passos do meu genro, conversar com amigos e familiares, ver as novas fotos da minha filha e, não sejamos hipócritas, flertar um pouco também. Graças ao Facebook, percebi que meus cabelos grisalhos fazem sucesso. Vira e mexe recebo cantadas de amigas da Camilla e até de algumas alunas do MBA. Não me queixo. Pelo contrário. Que erga-se um Monumento ao Pai Ausente!

Digressões à parte, não-raro meu genro escreve palavras pouco lisonjeiras sobre o Fluminense em sua linha do tempo. Eu, na minha, também faço posts execrando o lado negro da força. Mas nunca comentei os posts dele. Tampouco ele cacarejou nos meus. Comportamento civilizado – 100% de acordo com o meu ‘código de conduta digital’, que diz: liberdade irrestrita para cada um postar o que quiser em sua própria linha o tempo, mas nada de poluir posts alheios com comentários deselegantes. Se quiser falar mal do Fluminense, que desfile toda sua inveja e recalque em sua própria linha do tempo. Na minha, não!

E tudo ia bem até duas semanas atrás, quando minha filha e meu genro convidaram eu e minha ex-mulher para um almoço no apartamento deles. Estavam felizes. À mesa, uma garrafa de Catena Zapata e um saborosíssimo filet mignon em crosta de pistache antecipavam a novidade. Fui duplamente surpreendido: pelos dotes culinários de Camilla, que jamais fritou um ovo enquanto morava comigo, e pela capacidade do meu genro de escolher um vinho razoável – normalmente, urubu bebe aguardente. Mas a maior surpresa ainda estava por vir. Após o cafezinho, minha filha pediu a palavra e anunciou que estava grávida. Desde que recebi o convite, imaginei que fosse esse o motivo do almoço. Ainda assim, não consegui segurar a emoção. Era o meu primeiro neto que estava a caminho. Chorei. Minha ex-mulher também se desmanchou em lágrimas. Em poucos meses, seríamos avós. Foi uma cena emocionante. Lembrei do nascimento da Camilla, de quando ela começou a falar, de quando aprendeu a ler e de várias fases marcantes de sua vida. Agora, ela se preparava para ser mãe. Que orgulho da minha menina! Abrimos uma Veuve Clicquot e brindamos felizes sua gestação.

Estava sendo esta uma das tardes mais alegres da minha vida, quando, de repente, não mais que de repente, o pai do meu genro tocou a campainha. Se, de fato, até este almoço eu não tinha nada contra o garoto, o mesmo eu não podia dizer sobre o seu pai. Que velho desagradável! Bicho espaçoso e mal-educado. Seu jeito lembra o do Agostinho Carrara de A Grande Família. Em cinco minutos, ele disse a que veio. Minha filha serviu uma taça do champanhe para o sujeito, ele a levantou e disparou: “um brinde ao mais novo rubro-negro do pedaço!”

Emudeci. Como eu, tão sensato, tão racional ainda não tinha pensado neste cenário, nesta crônica de uma tragédia anunciada? Um neto flamenguista, meu Deus! Que desgosto profundo imaginar um bastardinho no mundo. Para piorar, a encenação me deixou puto! Odeio quando subestimam minha inteligência. Só no cérebro de cupim do meu genro é que a tosca encenação do seu pai passaria despercebida por mim. Estava claro que os dois tinham combinado aquele folhetim ridículo. Ele queria marcar território, se posicionar, avisar que seu filho seria flamenguista, mas não teve coragem de me falar isso feito homem, olho no olho. Pusilânime, preferiu pedir ajuda ao papaizinho.

Minha filha percebeu meu desconforto e deu um jeito de ficar a sós comigo. Eu não queria estragar sua felicidade, mas aquela cena patética não me deixou sorrir. Camilla foi direto ao ponto: “pai, você sabe que futebol é mais importante para o homem do que para a mulher. Eu conversei com o Marcelo e decidi que não vou interferir na escolha do clube do meu filho.” Neste momento ela fez uma pausa dramática, respirou fundo e terminou de enfiar o punhal no meu peito: “E nem você, pai! O Marcelo é quem vai cuidar disso.”

Preferi não responder. Só não consegui disfarçar a minha tristeza. Acenei com a cabeça, agradeci o almoço, dei um beijo em minha filha, um abraço em minha ex-mulher que, pelo seu olhar, tenho certeza, compadecia de minha dor, me despedi com educação dos dois patetas e sai do apartamento circunspecto, um tanto macambúzio, mas ainda emocionado pela vinda do meu primeiro neto.

Fiquei dias sofrendo, imaginando uma maneira de salvar o garoto. Não me passava pela cabeça permitir que meu primeiro neto fosse desde pequeno exposto a altas doses de radiação vermelha e preta.

“- Por que você não se casou com a Camillinha?”, desabafei com Kadu Palhano, fraterno amigo tricolor, quase 20 anos mais jovem que eu.

“- Porra, Reinaldo! Você nunca me deixou chegar perto da Camilla direito. E, te juro, não foi por falta de vontade…”

“- Mas agora eu deixo, Kaduzão. Vai lá e põe um par de chifres naquele flamenguista filho da puta!”

“- Calma, Reizinho” – era como ele me chamava. “Você não vai conseguir resolver nada de cabeça quente. Eu entendo perfeitamente o que você está sentindo, mas seu neto ainda nem nasceu. Nós temos bastante tempo para pensar no que fazer. Confie em mim.”

Suas palavras me tranquilizaram. Racional e acolhedor, Kadu parecia saber o que estava falando. Diferentemente de mim, que estava inebriado pelo desespero, ele tinha o distanciamento necessário me ajudar a enxergar o cenário com clareza.

“- Eu entendo sua preocupação e tristeza, Rei. Sentiria o mesmo se acontecesse comigo – bate-na-madeira-pé-de-pato-mangalô-três-vezes! – mas muita água ainda vai rolar até que o garoto escolha para qual time vai torcer. Isso só costuma acontecer em torno dos sete anos de idade.”

“- E o que eu faço até lá? Encho o moleque de presentes tricolores? Camisas, chuteiras, mochilas, shorts etc…”

“- Não acho a melhor estratégia, Rei. Você vai bater de frente com os dois patetas, vai criar um clima horroroso e, provavelmente, até a Camilla vai ficar contra você. Imagina se fosse o inverso, se o seu sogro desse uma camisa do framengo para o seu filho. O que você faria?”

“- Bom ponto. Você tem razão. Mas o que eu faço, então? Me ajuda, por favor…”

“- Por enquanto, nada. Deixe os dois patetas acharem que venceram a parada. Mesmo que você veja um emblema mulambento no berço do garoto, não comente nada. Preserve a harmonia familiar e faça o que tenho certeza você já faria naturalmente: aproxime-se do seu neto e seja o melhor avô do mundo. Muito melhor, mais carinhoso e mais atencioso do que o pateta-pai.”

“- Ok, dar amor e carinho é natural. Não vai me exigir esforço algum. Agora, ver um móbile vermelho e preto no berço do moleque e não rasgar aquela merda em pedacinhos vai ser foda. Não tenho sangue de barata.”

“- Relaxa, Rei. Até os 4 anos um garoto não sabe nem direito o que é futebol. O importante é  você conquistar o amor e a admiração dele e preservar a paz familiar. Além disso, tem outro ponto. Triste, mas real. A Camilla e o Marcelo podem se separar. E, se eles se separarem antes de o garoto fazer 6 anos,  você terá todas as chances para ensiná-lo a importância de ser Tricolor sem precisar se desgastar. Afinal, a guarda ficará com a Camilla e você terá todo o tempo do mundo para mostrar ao seu neto o caminho do bem. E melhor, a Camilla não irá se opor!”

“- É verdade! Eu não tinha pensado nisso. Mas não sei se consigo torcer pela separação deles. Apesar do Marcelo ser um framenguista filho da puta, ele ama a minha filha e vice-versa. Eu não iria aguentar vê-la sofrendo…”

“- Ei, Rei! Eu não tô dizendo para você torcer contra o casamento da sua filha. Eu sou tricolor, porra! Não sou framenguista, nem psicopata, com o perdão da redundância. Agora, sejamos realistas. A probabilidade de ela se separar antes de o moleque decidir para que time irá torcer é grande. O IKAPE, Institulo Kadu de Pesquisa e Estatística, estima que cerca de 40% das crianças de classe A com seis anos de idade têm pais separados. Ou seja, não é um cenário que podemos descartar. Qualquer avô minimamente zeloso e racional precisa contemplar essa possibilidade. E, cá entre nós, se isso acontecer, por mais que não queiramos, o garoto tá salvo!”

- Você tem razão, Kaduzão! De fato, o tempo é o meu maior aliado. Mas, e se minha filha não se separar mesmo do Marcelo? O que podemos fazer para evitar a tragédia?

“- Aí, meu caro, só nos restará apelar para o MCBP”

“- MCBP!?”

“- Método Celso Barros de Persuasão”.

Dei uma gargalhada e perguntei no que consistia esse método.

“- Ora, Rei, sem hipocrisia, você é muito mais inteligente e tem uma condição financeira bem melhor que a do Marcelo e da família dele. É só usar essa vantagem competitiva a seu favor.”

“- Desenvolva…”

“- É simples. Além de ser um avô participativo e amoroso com o seu neto, o que, tenho certeza, você já será naturalmente, seja também ‘generoso’. Presenteie seu neto com coisas bem legais. Não só no Natal ou no aniversário dele mas, principalmente, depois de grandes vitórias do Fluzão. Ganhamos um clássico? Dê um Gameboy pra ele. Fomos campeões carioca? Um PlayStation. Libertadores? Viagem pra Disney. E por aí vai… Tudo isso, de modo sutil para que a Camilla e o Marcelo não percebam sua intenção. Não precisa nem mencionar o Fluminense. Se o seu neto perguntar porque você está dando um Ipad pra ele, por exemplo, diga apenas que é porque você está feliz. Naturalmente, ele começará a associar as vitórias do Fluminense a coisas boas para ele.”

“- Genial, Kadu! Você arquitetou todo esse plano agora?”

“- Claro que não, Rei. Eu já passei por uma situação parecida.”

“- Como assim!?”

“- Lembra da Patrícia, minha ex-namorada?”

“- Não a conheci, mas você já me falou dela.”

“- Antes de namorar comigo ela era flamenguistas e frequentava o Maracanã. Só que lá do lado negro da força.

“- Como você costuma dizer: Puuuuuuta história triste, hein!

“- Põe triste nisso! Mas eu nunca tentei converte-la. Pelo menos, não explicitamente.

“- Mas ela virou tricolor? O que você fez?”

“- Apenas intensifiquei minhas oscilações de humor ante as vitórias e derrotas do Fluzão. Quando vencíamos eu a levava nos melhores restaurantes, dava presentes, viagens e ficava ainda mais carinhoso e de bom humor. Nas derrotas, fechava a cara e me isolava, cabisbaixo e taciturno – nada de sexo, cinema e conversa. Não demorou muito pra ela perceber que a vida dela ficava muito mais interessante com o Fluminense no alto da tabela. Um dia, despretensiosamente, perguntei se ela queria ir ao jogo comigo. Era um Fluminense e Vasco, escolhido a dedo. Maracanã lotado. Ela se animou. Vencemos. Ela saiu empolgada, impressionada com o clima vibrante e civilizado da nossa torcida. De lá, fomos comer no saudoso Le Saint Honoré, lá no alto do Méridien. Dormimos no hotel. Foi uma noite maravilhosa! Desse dia em diante ela passou a dizer que o Fluminense era o seu segundo time. Pra virar primeiro e único foi uma questão de tempo. Até hoje ela me agradece…”

“ – Brilhante, meu amigo!”

“ – Moral da história: se o método funcionou com uma moça de vinte poucos anos, inteligente e com personalidade forte, imagina o que não fará com uma criança de seis ou sete anos?”

- Verdade! É sórdido, mas genial e verdadeiro!”

- “Epa! Não tem nada de sórdido nem de antiético, Rei. Você não leu Weber?”

- “Ética de Convicção e Ética de Responsabilidade?”

- “Isso mesmo, meu caro. Esse é um caso que só pode ser analisado sob a ótica da Ética de Responsabilidade, ou seja, com base nas consequências do seu ato, do tamanho do mal que ele evitará e do bem maior que proporcionará. Em outras palavras, se seu neto virar tricolor, Weber o absolvirá e seu comportamento será considerado moralmente correto. FHC sabia disso. Jack Bauer também. Logo, concentre-se apenas em salvar o seu neto!”

“- Você tem razão, meu amigo. Um brinde ao Celso Barros, ao Max Weber e ao futuro mais novo tricolor do pedaço!”

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