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O sol doira sem literatura*

Postado por , domingo, 18 de abril de 2010Sem Comentários

Não gosto de ler. Ler me cansa. Entedia. Enfada. Faz cinco anos que não leio um romance. Devo ser o primeiro jornalista a assumir isso publicamente. À parte disso sou um leitor contumaz. Leio mais que a maioria dos mortais. Mas não leio por distração. Tampouco por entretenimento. Para me divertir prefiro ir à praia, ao cinema, ao Maracanã, a um bom restaurante, jogar futebol, viajar, azarar, comer, beber, transar. Enfim, há uma lista enorme de coisas que me aprazem mais do que ler.

O tempo é um recurso limitado. Ler um livro num momento de lazer significa abrir mão do chopinho com os amigos ou do cinema com a namorada. É o que os economistas chamam de trade-off. A escolha de um programa pressupõe a perda de outro. Por diversão jamais trocarei o vídeo game de quarta, o pôquer de quinta, o jantar de sexta, a balada de sábado ou o futebol de domingo por um livro. As motivações que me levam a ler são de outra natureza.

Leio porque tenho sede de informação, porque sinto necessidade de entender o mundo, de pensar, de refletir, de produzir novas ideias. Leio porque a leitura é o meio mais eficaz de apreensão do conhecimento. Mas para mim será sempre isso: um meio, uma ferramenta que me permite entrar em contato com o pensamento, as ideias, a produção intelectual de cientistas, filósofos e escritores em geral. Um meio, diga-se de passagem, moroso e cansativo. Quisera eu poder espetar um pen drive em minha mente e despejar lá de uma só vez todo o conteúdo das obras de Newton, Einstein, Bohr, Schrödinger, Feynman Platão, Freud, Marx, Hegel, Kant, Schopenhauer,  Wittgenstein, Popper e outros pensadores.

Enfim, ler é um mal necessário – pelo menos para mim. É algo que tenho que fazer para encontrar as respostas que procuro, para entender como o mundo funciona, aprender coisas novas, obter o conhecimento que preciso para agir, refletir, tirar as minhas próprias conclusões e produzir novos conhecimentos. Fosse criado um método mais rápido e eficaz de apreensão do conhecimento, como o do filme Matrix no qual as personagens carregavam informações diretamente ao cérebro, eu jamais abriria um livro novamente. Hoje, no entanto, não há essa possibilidade. Donde, ler é preciso.

***

Houve um tempo no qual a leitura me aprazia. Talvez porque fosse mais sonhador. Talvez por influência de meu pai, um devorador de romances (o velho chegava a ler quatro livros por semana). Talvez porque em minha época de adolescente o livro não tivesse tantos concorrentes quanto tem hoje. Pouco importa. Se eu fosse adolescente hoje em dia, dificilmente perderia meu tempo lendo Crime e Castigo, A Metamorfose, Dom Casmurro, Dom Quixote, Grandes Sertões Veredas e outras obras da literatura brasileira e mundial. Elas, sem dúvida, foram essenciais para a minha formação e para o homem que sou hoje. Deram-me a bagagem cultural que me faz, modéstia à parte, um sujeito intelectualmente acima da média. Mas não as li com esse intuito. Li-as para me divertir, passar o tempo, entreter.

Continuo lendo muito. Mas não mais por diversão. Não tenho mais paciência para literatura, ficção, romances. Não que livros dessa natureza não tragam conhecimento. Trazem, obviamente. Alguns são capazes provocar profundas transformações em quem os lê. Mas prefiro ir direto ao ponto, sem floreios, personagens, enredos e historinhas que só me fazem perder tempo. Quero a essência sem vaselina.

Nem de longe pretendo fazer apologia “aos meus cabelos brancos” – que não existem, graças a Deus! Mas, uma das principais vantagens que a idade me trouxe foi a capacidade de ‘editar’ a minha vida, de olhar todas as possibilidades que a mim se apresentam e escolher, dentro do espaço de tempo que possuo, aquelas que são melhores e mais interessantes para mim. Já não tenho mais o desespero juvenil de querer fazer tudo e não descartar nada, como se o tempo fosse uma variável elástica. Não é. Quem age assim, seja por sede de viver, seja por medo de escolher, frustra-se e não aproveita nada intensamente. Também já não me culpo nem me angustio por deixar de fazer algo legal para poder fazer algo, na minha avaliação, mais legal ainda. E é neste contexto que a leitura perdeu espaço na minha vida.

Ler um livro só se torna mais interessante que uma gama de outras atividades do meu cotidiano quando ele é capaz de me ajudar direta e objetivamente a refletir e avançar em questões – algumas, reconheço, aporéticas – que me perturbam desde a infância. A saber: qual o sentido da vida?; Há um sentido?; Se houver, por que o desconhecemos? Como viver ignorando a razão pela qual estamos vivos?; Há razão? Somos ou não uma espécie como todos as outras?; Há transcendência?; É tudo matéria?; Há livre arbítrio? Há valores absolutos? Enfim, buscar a resposta destas e de outras questões correlatas, entender um pouco mais o mundo e a minha experiência nele são motivos fortes o bastante para que eu troque uma viagem e até as minhas férias, como escrevi em outro texto (veja aqui), para ler um livro. Agora, como divertimento a leitura não tem mais espaço no meu dia-a-dia.

EM TEMPO:

Antes que alguém esbraveje “você dirige um projeto de educação, logo, não deveria dizer que não gosta de ler”, antecipo-me. Educar não é doutrinar. O bom educador deve estimular o estudante a pensar, a refletir e a tirar suas próprias conclusões. A diversidade de ideias e a pluralidade de opiniões devem ser sempre respeitadas e incentivadas. É neste contexto que este texto se insere.

Eu não acho ler divertido – pelo menos não tão divertido quanto uma centena de outras atividades. Imagino que a maioria dos jovens também não ache. Isso não quer dizer que não seja importante. Ler é fundamental para quem almeja ‘ser alguém na vida’, com o perdão do clichê. Resta saber se este é um argumento forte o bastante para estimular as crianças e os adolescentes a lerem mais. Temo que não. Assim como também não creio que repetir o mantra ‘ler é divertido’ produza algum resultado. O que fazer? Não sei. Talvez o livro tenha que se reinventar para se tornar mais atraente. O vídeo abaixo aponta um caminho. Devem existir outros.

*Frase extraída da poesia Liberdade, de Fernando Pessoa


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