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Sobre Marcos Vita

Postado por , segunda-feira, 2 de abril de 2012Sem Comentários

Marcos Vita se matou. Trabalhei com ele na Editora Abril. Morreu aos 23 anos, no dia 2 de abril de 2003. Fomos amigos. Levei-o ao Rio. Conheceu minha mãe, minha irmã e minha avó, que muito se afeiçoou àquele jovem baiano de sonhos curtos e idéias longas.

Fomos amigos, mas nunca chegamos a ser grandes amigos. Tínhamos divergências, que se acentuaram à medida trocamos os animados chopes de domingo por desgastantes reuniões profissionais. À época de sua morte éramos apenas colegas de trabalho.

Sua ambição me incomodava. Marcos gostava do poder e tinha uma meta clara: ser Diretor de Redação de Veja. Para isso, sacrificava fins de semana, trabalhava até altas horas e não se incomodava em bajular aqueles que poderiam ajudá-lo em seu fito.

Ele não gostava de demonstrar fraqueza. Tinha um problema na face, mas nunca deu abertura para que lhe perguntassem a origem do defeito. Pelas costas, alguns o chamavam de boca torta.

Marcos Vita tinha sangue político correndo nas veias. Jamais o ouvi falar mal de quem quer que fosse: colegas, fontes, entrevistados, chefes, todos passavam incólumes por suas avaliações. Marcos trabalhou em Veja e nunca se queixou do clima sisudo da redação. Francamente, não sei se gostava do ambiente ou se guardava para si suas queixas. O fato é que Marcos jamais disse algo que pudesse comprometer sua trajetória profissional. Nem depois do décimo chope.

Se no trabalho Marcos era arrogante e obcecado por poder e sucesso, fora dele era um menino doce e ingênuo, um amigo de prosa fácil e agradável. A arrogância, hoje consigo ver, servia para esconder sua insegurança. Marcos acreditava em seus sonhos, mas tinha medo de não alcançá-los. Medo e pressa. Marcos queria o poder e queria logo.

Por diversas vezes conversei sobre ele com Diana Helman, uma grande amiga que trabalhou conosco. Para mim, existiam dois Marcos Vitas: o do trabalho e o dos momentos de lazer. Ela concordava. Um era a antítese do outro. O primeiro, carreirista, ganancioso, puxa-saco. O outro, baiano, alegre, divertido. Um era distante, errante, arrogante. O outro, próximo, amigo, boa-praça. Ambos inseguros, frágeis, vulneráveis.

Talvez este texto esteja passando a imagem de que Marcos Vita era nerd. Não era. Ele era estudioso, trabalhador, determinado, mas não era nerd. Nas horas de lazer mostrava seu lado baiano, boêmio, brincalhão. Tomávamos chope e o papo fluía gostoso. Sua cultura me impressionava. Jamais conheci outro jovem de 23 anos com tamanha bagagem cultural. Mas não era só isso. Marcos jogava bola e gostava de futebol. Torcia pelo Bahia e jogava bem. Era um pé de valsa também. Certo dia fomos ao forró. Como aquele Baiano dançou! Rebolava mais que bambolê frenético. Puxava todas as meninas do recinto e saia rodopiando com elas pelo salão sob os olhares desse carioca duro e desengonçado.

No fundo, eu tinha carinho por ele e senti muito a violência de sua partida. Marcos se jogou do oitavo andar do prédio onde morava. Não deixou bilhete, tampouco deu sinais de que pretendia se matar. Foi um duro golpe em todos aqueles que conviviam com ele. Fiquei noites e noites sem dormir. Passei meses à procura de uma explicação. Elaborei varias. A mais plausível, embora rasa, foi a dispensa de Veja. Marcos não suportou ser dispensado. Aquilo era uma vergonha para ele. Algo que não conseguiu suportar.

Parece pequeno. E talvez isso não seja tudo. Mas é a hipóteses que me soou mais coerente depois de passar meses remoendo os fatos, relembrando conversas e recordando episódios que isolados pareciam não ter significado. Ter sido dispensado de Veja foi um duro golpe em sua autoestima. Julgava-se brilhante, e de fato era, mas incapaz de sofrer um revés profissional. Não suportou a frustração. Deixou-se dominar por uma amalgama de sentimentos negativos - vergonha, tristeza, angústia, incompreensão, solidão – que o conduziram ao fim. Jogou-se num impulso, num momento de desespero, no anseio de acabar com aquela dor dilacerante que ele não conseguia mais suportar.

Por muito tempo me culpei por não ter prestado atenção em Marcos. Até hoje me pergunto se eu não poderia tê-lo ajudado. Deveria ter tentado. Mas fugi de mim mesmo mais jovem. Fui fraco. Não quis me enxergar em suas atitudes. Preferi fingir que nunca fui como ele. Fui covarde. Não assumi que muitas das características que me incomodavam em Marcos um dia já foram minhas. Não fui capaz de ver que sua impávida arrogância acobertava um ser humano complexo que sofria com suas contradições e antinomias. Não percebi o que hoje para mim é óbvio: Marcos pedia ajuda para se libertar de si mesmo.

Ah, meu velho, seu eu pudesse voltar no tempo; se eu pudesse lhe mostrar que a vida é mais que um punhado de gente apinhada numa redação; se eu pudesse lhe contar dos meus enganos e dos meus 20 anos, das minhas angústias e crises existenciais de agora e de outrora; se eu pudesse lhe confessar que ainda sofro em busca de um sentido para a minha existência, você veria que não estava sozinho. Veria que os seus sentimentos, angústias e crises existem em outras mentes e não só na sua.

Mas agora é tarde.

Só me resta fazer coro às palavras da nossa amiga, tutora e conselheira Marília Scalzo: “Marcos fez uma escolha e, por mais que isso nos doa, temos que respeitar essa escolha”.

Oxalá, meu amigo!

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